Equipamento foi desenvolvido para auxiliar e facilitar o Monitoramento Acústico Passivo (MAP)
Você já imaginou como seria se nós enxergássemos os sons? Como seria traduzir uma música em uma imagem? Pode até parecer algo poético demais ou surreal demais, mas sabia que isso já é uma realidade?
Pesquisadores do NAPI Biodiversidade precisaram recorrer a essa ideia para analisar e estudar os mais diversos cantos, chamados e outros sons emitidos por diferentes espécies de aves no Paraná, já que eles possuem uma quantidade enorme de horas de áudio para serem estudadas e catalogadas.
O trabalho minucioso e grandioso realizado no Laboratório de Ornitologia e Bioacústica (Lóbio), da Universidade Estadual de Londrina (UEL), pelo coordenador e professor, doutor Luiz dos Anjos, e pelo pós-doutorando Gabriel Lima Medina Rosa, envolve a análise do material captado com gravadores autônomos, amarrados em árvores de fragmentos florestais, que realizam um Monitoramento Acústico Passivo (MAP).
Esse gravador digital capta 1 minuto a cada 10, ao longo de meses a fio, sem necessidade de trocas de baterias e cartões, ou da presença de uma pessoa no ambiente. Assim, remotamente, os pesquisadores conseguem gravar o canto das aves para monitorar ambientes naturais e entender como as comunidades de espécies respondem às transformações da paisagem.
O foco principal das pesquisas do Lóbio, que é referência no estudo da acústica de aves no Paraná – reúne registros desde 1983, quando as gravações eram feitas em sistemas analógicos –, é compreender como comunidades de aves se ajustam quando uma floresta fica menor ou mais isolada e como as aves retornam a áreas que estão sendo restauradas.
Isso é especialmente importante porque nem todas as aves conseguem simplesmente “voar de um fragmento para outro”. Algumas espécies que vivem próximas ao solo e se alimentam de insetos são particularmente sensíveis à fragmentação e evitam atravessar áreas abertas e muito iluminadas. Assim, a presença ou ausência dessas aves pode revelar muito sobre as condições daquele ambiente.
“No caso dos fragmentos, nós estudamos quais espécies são perdidas de acordo com o tamanho ou isolamento de tal área. E, mais recentemente, estamos analisando o potencial de resiliência ecológica do fragmento, a partir da memória ecológica daquela comunidade de aves, considerando se a floresta fosse contínua ou não, por exemplo”, comenta o coordenador do laboratório.
Professor Luiz dos Anjos, um dos responsáveis pelo monitoraSom.
No campo, há instalações de equipamentos na Mata dos Godoy, na região de Alvorada do Sul e no Parque Nacional do Iguaçu, por exemplo. Em uma única campanha de campo pode ser gerado mais de 100 gigabytes de gravações, ou seja, um volume de dados que seria praticamente impossível de analisar manualmente.
É aí que os sons precisam ser transformados em imagens!
Os pesquisadores desenvolveram o monitoraSom, um software que facilita a extração de informações biológicas a partir de gravações de áudio. “Nós selecionamos o áudio, colocamos no computador, processamos e transformamos em uma imagem, que é chamada de espectrograma. O espectrograma de uma gravação mostra manchas, que, no caso, é a imagem do canto de uma espécie de ave específica. Assim, cada canto aparece no espectrograma sempre no mesmo formato”, explica Rosa.
Ou seja, por meio dos chamados espectrogramas, os cantos das aves aparecem como padrões visuais. Como cada espécie possui características próprias em seus sons, essas imagens podem ajudar a identificar quais aves estão presentes em determinada área e, futuramente, permitir que algoritmos façam parte desse trabalho de forma automatizada.
“Nós conseguimos visualmente extrair informação sem nem escutar determinada gravação, porque a partir do espectrograma gerado já é viável extrair a lista de espécies que cantou no áudio captado. E, como isso é possível, também é possível fazer um algoritmo computacional que faça a identificação da espécie automaticamente”, afirma o pós-doutorando.
Doutor Gabriel Lima Medina Rosa, um dos responsáveis pelo monitoraSom.
Para os pesquisadores, acelerar essa capacidade de monitoramento é cada vez mais urgente, afinal a biodiversidade está sendo perdida em uma velocidade maior do que conseguimos acompanhá-la. Automatizar a análise dos sons pode permitir que grandes volumes de dados sejam processados mais rapidamente, ajudando a identificar mudanças nos ecossistemas e subsidiar decisões relacionadas à conservação, restauração e até ao licenciamento ambiental.
No fim, ouvir a floresta é também uma forma de entender o que está acontecendo com ela. E, quanto mais rápido conseguirmos interpretar esses sons, maiores são as possibilidades de reconhecer as mudanças e agir em busca da preservação e conservação ambiental.
