Plataforma desenvolvida por pesquisadores do NAPI Biodiversidade: Serviços Ecossistêmicos acompanha a distribuição espécies exóticas pelo Paraná ao longo do tempo
Muitas vezes, quando observamos o espaço natural ao nosso redor, temos a tendência de imaginar que tudo o que está ali deveria, de fato, pertencer àquele lugarzinho. No entanto, especialmente no que diz respeito ao Brasil, muito da nossa natureza não é ‘original’ do nosso meio ambiente.
Plantas, animais e outros organismos chegaram até aqui pelas mais diversas vias, seja pela ação humana, pelo transporte, pela atividade econômica ou por processos naturais. Por esse motivo, são consideradas espécies exóticas e compreendê-las faz toda a diferença para entender as consequências de sua presença fora de seu habitat original.
Assim, pesquisadores do NAPI Biodiversidade: Serviços Ecossistêmicos focaram suas pesquisas em uma meta especial para essa investigação, ou seja, a Meta 8 – Criação do Observatório Paranaense de Espécies Não-Nativas e/ou Invasoras, visando a redução de perdas econômicas e ambientais.
E a meta foi alcançada!
O professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), doutor José Ricardo Pires Adelino, juntamente com professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), os doutores Marcos Robalinho Lima e André Andrian Padial, desenvolveram o Observatório Paranaense de Espécies Exóticas. A iniciativa funciona como uma ferramenta de monitoramento e pesquisa, transformando milhares de registros em mapas, gráficos e dados que ajudam a visualizar a dinâmica das espécies exóticas no Paraná.
Pesquisadores desenvolvedores do Observatório Paranaense de Espécies Exóticas.
Da esquerda para direita: José Ricardo Pires Adelino, André Andrian Padial e Marcos Robalinho Lima.
O trabalho também foi realizado em colaboração com os pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Aline Rosado, Kazue Kawakita, Roger Mormul e Sidinei Magela Thomaz; da UEL, Fernando Jerep; e da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Éder André Gubiani e Pitágoras Augusto Piana. Houve,ainda, colaboradores do Laboratório de Ecologia e Conservação (LEC – UFPR Litoral), do Laboratório de Análise e Síntese da Biodiversidade (LASB – UFPR) e do Laboratório de Ecologia Evolução e Conservação – EECon – UEL).
A base contempla informações atualizadas até 2025 e permite observar a distribuição das espécies desde 1950, com a catalogação de mais de 400 espécies, cerca de 8 mil ocorrências mapeadas e registros nos 399 municípios paranaenses. Ao selecionar diferentes períodos, é possível observar como os registros se modificaram durante as últimas décadas e identificar regiões nas quais a ocorrência dessas espécies aumentou ou não.
“Espécies não nativas são potencialmente espécies invasoras, ou seja, em algum momento, a sua presença pode trazer impactos ambientais, sociais e econômicos para o Paraná. Isso é um problema, porque, nem sempre, a reversão desses impactos é possível e, quando possível, na maioria das vezes demanda alto custo orçamentário. Por isso, a prevenção da chegada, o monitoramento e o manejo de populações no início da introdução são mais eficazes em termos de esforço e custo financeiro. E o Estado fica dentro dos limites de distribuição da Mata Atlântica, que, mesmo bastante fragmentada, continua sendo uma das regiões com maior diversidade de flora e fauna do planeta”, expõe Adelino.
Os dados também podem ser analisados de acordo com diferentes grupos. O sistema reúne espécies de ambientes terrestres, aquáticos e marinhos e permite diferenciá-las entre plantas, invertebrados e vertebrados. O professor da UFPR explica que, embora existam algumas exceções – como o javali, que foi introduzido há muito tempo –, a maioria das espécies não nativas tende a ter populações reduzidas, o que dificulta a amostragem em campo e o desenvolvimento de pesquisas científicas in situ que possibilitem avançar na compreensão de suas causas e consequências.
Dessa maneira, o Observatório possibilita olhar para o fenômeno em diferentes escalas: de uma espécie específica até o panorama da presença de organismos exóticos em todo o Paraná. Mais do que apresentar números, essa perspectiva histórica ajuda a compreender que a distribuição das espécies não é estática. Ela pode mudar com o tempo, acompanhando transformações no ambiente, nas atividades humanas e nas próprias condições que favorecem a chegada e a permanência desses organismos.
Por isso mesmo, a criação de mapas interativos foi fundamental para esse trabalho, afinal, é possível identificar regiões com maior concentração de ocorrências e observar padrões de distribuição pelo território paranaense, a partir de registros espaciais.
Assim, é possível indicar com uma facilidade muito maior as áreas que merecem uma atenção diferenciada para monitoramento, pesquisa ou ações de conservação. Essa leitura territorial é uma das bases para compreender os possíveis efeitos da presença de espécies exóticas e planejar estratégias conscientes de manejo, bem como visualizar as áreas mais sensíveis à invasão, especificando, até mesmo, cada município.
Página do Observatório Paranaense de Espécies Exóticas.
“Visando aumentar a abrangência da utilização das informações produzidas por pesquisadores, professores e interessados, elaboramos duas interfaces complementares com o objetivo de facilitar o acesso aos dados e aos resultados obtidos até o momento. Essas ferramentas são o pacote de dados OPREE disponibilizado para linguagem R (https://github.com/RicardoAdelino/ObervatorioPR). Esse pacote contém todas as informações obtidas até o momento pelo observatório”, explica Adelino, além da interface disponibilizada no site, permitindo a exploração dinâmica dos principais resultados de pesquisas realizadas pelos membros do observatório.
E um dos grandes diferenciais do Observatório é a combinação entre dados históricos, mapas de distribuição e previsões, fazendo com que haja um rico e amplo panorama de espécies não-nativas no Paraná nos últimos 75 anos. É um montante de dados enorme, que deixa de olhar apenas para ocorrências isoladas e considera o todo.
Esse conjunto de informações pode subsidiar pesquisas científicas, políticas públicas, ações de conservação e iniciativas de educação ambiental. Contribuindo, assim, para aproximar a sociedade do conhecimento produzido sobre a biodiversidade paranaense, pensando, inclusive, no manejo e proteção da biodiversidade nativa.
“Entendemos que temos muitos pesquisadores na área, pesquisas de ponta e até mesmo muita divulgação, mas ainda de forma fragmentada e com informações pouco palatáveis para o público geral. Queríamos corrigir eventuais limitações das bases já existentes e traduzir as informações para uso geral. A ideia é não ser estático, continuar aprimorando o Observatório adaptando-o às necessidades assim que elas surgirem”, explica Adelino.
Entender a presença de organismos fora de sua área de origem não significa apenas saber quais espécies existem no Paraná, mas sim compreender as mudanças que acontecem no território e produzir informações capazes de orientar escolhas para a conservação da biodiversidade nativa. O impacto do projeto pode, inclusive, deixar de ser regional, para se expandir à nível nacional. Afinal, a demanda do Observatório pode ser encontrada em todo o país, com suas particularidades e diferenças em cada região.
“Em uma situação ideal, acredito que a padronização desse ecossistema de informação apresenta potencial para escalar de um observatório regional para uma rede de observatórios regionais que integre conhecimento contextualizado e especializado sobre espécies não nativas. Isso poderia ser escalonado para uma infraestrutura nacional agregadora de informação de todos os observatórios regionais”, pondera Adelino.
Para conferir o Observatório Paranaense de Espécies Exóticas clique aqui.
